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Gabriel Novis Neves
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Sexta, 09 de agosto de 2013, 12h29

Centenário

Recebi, por empréstimo, o luxuoso livro comemorativo do centenário da Associação Comercial e Empresarial de Cuiabá.

Essa associação foi fundada no início do século vinte, mais precisamente, no dia 28 de julho de 1912.

Naquela época a nossa capital era uma cidadezinha de menos de trinta mil habitantes e, praticamente, isolada do mundo. A única comunicação da cidade com os grandes centros era conseguida, com muita paciência, pelas águas do rio Cuiabá.

Poucos estabelecimentos comerciais conseguiam sobreviver a esse isolamento.

A inauguração de um novo empreendimento era sempre uma festa, e contava com a participação de um grande número de pessoas.

Assim aconteceu no dia 29 de junho de 1920. Na noite de São Pedro e São Paulo, no barracão do único cinema da cidade, surgia o Bar Moderno, só conhecido na Junta Comercial.

Esse verdadeiro centro de vivência de Cuiabá foi incorporado à nossa história como o Bar do Bugre.

Durante meio século viveu com muita saúde e era ponto de referência histórica e cultural na cidade de Dom Aquino Correa.

Com o desaparecimento do seu fundador, o local passou por várias transformações e, até hoje, é um centro comercial diversificado, inclusive com o Bar do Bugre reciclado.

Esse livro comemorativo pretende mostrar o papel da Associação Comercial no “desenvolvimento de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil”.

O seu primeiro presidente foi o tenente-coronel Manoel Escolástico Virgínio, que era intendente do município. Ficou no cargo de 1912 a 1941.

Naquela ocasião a Associação coordenava todas as “atividades comerciais” de Cuiabá.

Em 1957, o presidente da época afirmava que “era um órgão representativo da classe comercial de toda a zona norte do estado, tendo em vista a preservação ao interesse, não apenas dos seus associados, mas da coletividade desta região”.

Não encontrei na leitura do extenso livro nada além da merecida biografia dos seus antigos e atuais dirigentes, de centenas de fotos de interesses pessoais e citações esparsas de extintos estabelecimentos comerciais que não marcaram o imaginário popular desta cidade.

Pequenos detalhes não foram esquecidos, como a visita de uma Miss Cuiabá à sua sede e audiências com políticos, que não resultaram em nada para o nosso esperado desenvolvimento.

A centenária Associação foi dirigida nesse seu primeiro século de existência por militares, políticos, homens ilustres da nossa sociedade e até comerciantes.

Estranho não haver referência ao engajamento da Associação na luta pela criação da nossa maior indústria de conhecimento - a nossa UFMT -, implantada na década de setenta no distrito do Coxipó da Ponte. Por que será? Será por quê?

Ainda mais se considerarmos que essa obra, a mais importante do nosso Estado pelo seu alcance de justiça social, foi transformada em realidade pelo apoio dos pobres, e teve como principais executivos três filhos de pequenos comerciantes, afastados do glamour dos poderosos.

Filhos do dono de um bar, de um pequeno comerciante de material de construção e de um plantador de poaia, ficavam à deriva dos palácios.

No esquecimento do livro, também aqueles comerciantes humanistas, que até hoje habitam a memória dos antigos desta cidade, onde o lucro nunca foi o seu objetivo de vida.

Viveram mais para servir aos pequenos com as suas cadernetas mensais - onde o fiado era peça fundamental de compreensão social.

Sem participar da criação da nossa universidade, esta, num gesto de grandeza, convocou para representar a classe comercial na constituição do seu primeiro Conselho Diretor, composto apenas por seis membros, um dos seus mais ilustres quadros - o pioneiro João Celestino Correa Cardozo que, durante seis anos emprestou toda a sua solidariedade ao projeto da mocidade cuiabana.

A história é feita por anônimos e escrita pelos poderosos de plantão.

Por isso, tenho pavor de receber certas homenagens, pois muitas são verdadeiros castigos. 

Gabriel Novis Neves é mèdico em Cuiabá e ex-reitor da UFMT
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