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Quarta, 25 de agosto de 2010, 12h20

O estigma do Comendador Arcanjo

A condenação do Comendador Arcanjo não está bem explicada para a sociedade onde ele viveu, constituiu família e fortuna. O comendador faz parte da história de Cuiabá e da nossa sociedade porque, na verdade, aqui ele foi homenageado pela sociedade com a comenda de Comendador, aqui ele viveu, passou sua juventude, lutou tenazmente por um lugar ao sol e conseguiu.

De agente policial, segurança de autoridades chegou ao empresariado conquistando amizade, fama e dinheiro. Moço ainda, o conheci namorando filha da minha vizinha. Casou e teve filhos. Mesmo pobre, não se entregou. Foi à luta e se tornou empresário rico e poderoso. É evidente que nesse topo a inveja o alvejava de todos os lados. Nessas condições a tendência é a pessoa receber golpes no corpo e na alma.

Destemido, se tornou respeitado e admirado por todos. Governador, deputados, desembargadores e outros figurões marcavam audiência para encontros com ele no seu escritório. O poder era tanto que por telefone nomeava e demitia gente no governo e transferia bilhões de dólares de personalidades para o exterior.

Afável, educado, respeitador, ganhava admiração de todos que com ele se encontravam. Na Estância 21, onde funcionava o cassino, centenas de autoridades, empresários, políticos e magistrados jogavam o que tinham e muitos entregavam tudo na jogatina até de madrugada, cuja casa as autoridades implicitamente admitiam.

Habituado a apertar as mãos, nunca as negou a quem quer que seja. Nunca pegou em arma para acertar ninguém, pelo contrário acertava as pessoas com os olhos e atenção. Todos que o procuravam se sentiam bem. Amealhou fortunas, um império a saber. Mas tudo isso foi conquistado com inteligência e não com violência ou morte, porque o que ele fazia muitos fazem de terno e gravata, de toga e até de farda na Assembléia Legislativa, no Tribunal de Justiça e no governo com os "maquinários na palma da mão" e em inúmeros órgãos públicos.

Era leal e abominava a traição ou a falsidade nos negócios. Era como o adágio jurídico: dura lex, sed lex. Ainda que se impunha sacrifícios, a palavra tinha que ser cumprida. Para formar o seu império nunca se meteu com o tráfico de drogas, tráfico de armas ou roubo do dinheiro público. Nunca.

Com inúmeras marmorarias, acertava com as empresas da construção civil e elas subiam os prédios e ele fazia o acabamento e recebia em pagamento inúmeros apartamentos no prédio em construção e o lucro era inexplicavelmente grande. A exemplo da Caixa Econômica explorava os jogos de azar. Empregava milhares de pessoas. Ganhava milhões e ampliava o seu império tudo com o conhecimento e conivência das autoridades.

Como considerar crime esse negócio se nenhuma autoridade importava? Explorava Factoring. Enquanto o Banco do Brasil, Caixa Econômica exploravam cheque especial a 9%, 10 e 12%, ele emprestava dinheiro sem burocracia nas suas Factorings a 5%. Enquanto o Cartão de Crédito admitido pelo governo emprestava a 11% ele mantinha os 5% nos seus empréstimos.

Enquanto o comendador explorava o Jogo do Bicho fazendo a felicidade de muita gente que trabalhava e jogava de forma simples e recebia no mesmo dia, a Caixa Econômica explorava a Mega-sena, a Quina, Loteria Esportiva, Loteria Federal e outras pilhagens públicas sugando a sociedade e retirando-lhe o pão e a cerveja em troca de sonhos numa enganação indecente.

Sabe-se que ele não matou e não mandou matar o jornalista, mas, apenas, o usaram para esconder outros escândalos da época envolvendo os poderosos. O sistema precisava tirá-lo da jogada pública. O maior crime foi provocar a ira dos adversários políticos do seu tempo. O seu jatinho levantava vôo no Brasil e pousava nos Estados Unidos fazendo serviços para dezenas de políticos na área financeira. Se era lícito ou não o seu serviço, isso é problema das autoridades.

O que interessa à sociedade é que coisas piores do que isso acontecem no Brasil e tudo fica como dante. Bilhões de reais saem pelo ralo dos cofres públicos e as autoridades dizem "não vi" e "não sei".

Qual a diferença entre o Comendador Arcanjo e os corruptos? Qual a diferença entre o Mensalão, o Valérioduto e o Comendador? Qual a diferença entre a imoralidade com o dinheiro da Assembléia Legislativa, o dinheiro do Tribunal de Justiça, os "Maquinários na palma da mão" do governo do Estado e o Comendador Arcanjo ? Qual a diferença entre Daniel Dantas e o comendador Arcanjo? Ao meu sentir, nenhuma diferença há.

O estigma do Comendador Arcanjo tem que cicatrizar e retornar à sociedade, porque os seus atos são idênticos aos demais que estão a aguçar a memória da sociedade. Como ninguém está preso, ele também deveria estar em liberdade. Afinal, vivemos e respiramos uma democracia arenosa para uns e nada para os demais.

Finalmente, não podemos esquecer que Arcanjo é um anjo de ordem superior, o primeiro entre os anjos.

Advogado, presidente da Comissão de Defesa do IBDI/SP. felixmarques@terra.com.br

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